Ex-agente do Doi-Codi diz que Rubens Paiva foi esquartejado

José Meirelles Passos, do jornal O Globo

Um documentário inédito, a ser exibido na quinta-feira à noite no Festival de Cinema de Brasília, contém uma revelação macabra feita por um ex-agente do DOI-Codi, o órgão de inteligência e repressão da ditadura militar: a de que vários de seus inimigos, que se tornaram presos políticos – e cujos nomes passaram a figurar na lista de desaparecidos do regime – tiveram os corpos esquartejados. Um deles, segundo um ex-agente, era o deputado Rubens Paiva.

A afirmação, como antecipou nesta terça-feira Ancelmo Gois em sua coluna no GLOBO, foi feita por Marival Chaves, ex-agente do DOI-Codi, em depoimento ao cineasta Jorge Oliveira para o filme “Perdão, Mister Fiel”, de 95 minutos, cujo tema principal é a morte sob tortura do operário Manoel Fiel Filho, em São Paulo.

- O que me surpreendeu foi que o sujeito contou várias atrocidades de cara limpa, com a maior tranquilidade. Ele disse que havia inclusive uma espécie de disputa entre os torturadores: a de apostar quantos pedaços iam render os corpos de cada uma das vítimas – disse Oliveira.

Oliveira: “Chaves sabe muito mais do que já contou”

Segundo o cineasta, Marival Chaves revela no filme a identidade de torturadores, inclusive a de um coronel:

- Ele conta que esse sujeito dava nos presos uma injeção de matar cavalos. E, para desaparecer com os corpos, mandava esquartejá-los.

Ao receber essa informação, na tarde desta terça-feira, o escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado morto pela ditadura, reagiu de forma resignada, e relembrou as informações apuradas até hoje, de forma extraoficial:

- Bem, ele (o pai) pode ter sido esquartejado. Como saber? A única certeza é a de que ele foi morto dois dias depois de preso e torturado, e que sumiram com seu corpo. Meu pai foi preso, torturado e morto pelo DOI-Codi do Rio, e enterrado no Rio – disse ele.

O diretor do filme disse que chegou a Chaves através de um processo simples. Ele tinha em mãos nomes de vários oficiais do Exército que participaram da repressão. E começou a abordá-los:

- Eu fui descendo a lista hierarquicamente, um a um. Ninguém queria falar. Até que cheguei no Chaves, que, na época da repressão, era sargento do Exército, com vinte anos de serviços prestados. E ele decidiu falar. Ele me deu a impressão de que foi uma espécie de desabafo – disse o diretor.

Chaves é velho conhecido do Grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro. A presidente da ONG, Cecília Coimbra, disse que Chaves era analista de informações do DOI-Codi em São Paulo, e não participava de torturas. Ela e outras pessoas do grupo já conversaram várias vezes com o ex-sargento:

- Ele embromava muito em nossos encontros. Dizia que estava sendo ameaçado de morte. Eu acho que ele só fala o que lhe permitem falar. Mas, sem dúvida, sabe muito mais do que já contou. Cabe agora ao governo intimá-lo a depor. Chaves mora em Vila Velha (ES) – disse ela.

Repressão mandou queimar arquivos, diz ex-agente

O diretor do documentário contou que, no filme, Chaves faz outras duas revelações. Uma delas é a de que, no fim do ciclo da repressão, quando o país caminhava para a retomada da democracia, ele foi convocado por seus superiores no Exército para dois serviços: primeiro, esconder e depois queimar documentos que registravam torturas e outras atrocidades.

- O governo anda exibindo na mídia uma propaganda pedindo que as pessoas que têm informações sobre aquela época que as entreguem às autoridades. Espero que, uma vez exibido o documentário, o governo se mobilize para ouvir Chaves. Se o governo quiser, chama, convoca e apura – disse Oliveira.

Outra revelação do filme, também a partir de depoimento de Chaves, é a de que o atual ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, que na época militava no grupo MR-8, seria assassinado em São Paulo:

- Acho que Franklin até hoje não sabia que estava para ser morto, num determinado dia, na capital paulista. Ele vai saber disso ao ver o filme, pois Chaves também conta detalhes dessa perseguição – disse Oliveira.

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4 Comentários

  1. Publicado 29 de novembro de 2009 em 21:37 | Permalink | Editar

    O passado está logo ali, tão próximo que às vezes podemos estar frente a frente com o inimigo , nos serviços públicos, através de seus agentes que reproduzem, às vezes inconciente e outras vezes de ma fé, de forma “sutil”porém, devastadora. A tortura, infelizmente não é coisa do passado está muito presente na vida de milhares de pessoas; Dentro das delegacias pelo Brasil à fora, dentro das viaturas, em qualquer lugar. Hoje dia 29/11/2009 saiu em toda imprensa o caso que aconteceu no Rio de Janeiro: Mulher abordada por policiais eles levaram seu dinheiro, a molestaram sexualmente , recebeu um tiro no rosto, jogada em um penhasco como golpe de misericórdia. Filme de Terror? Não. São os toturadores pelo Brasil à fora…
    O QUE RESTOU DO PASSADO NO PRESENTE???

  2. joaquim cavalcanti
    Publicado 5 de dezembro de 2009 em 10:08 | Permalink | Editar

    CONSIDERO A SITUAÇÃO ATUAL DO BRASIL PIOR DO QUE NA ÉPOCA DA DITADURA MILITAR. NAQUELE TEMPO VIVÍAMOS UMA DITADURA, O CENÁRIO NÃO DEVERIA, MAS , PODERIA SER AQUELE, AFINAL ERA UMA DITADURA MILITAR. HOJE VIVEMOS UMA ALARDEADA DEMOCRACIA. COMO EXPLICAR O QUE OCORRE NAS FAVELAS, PRINCIPALMENTE DO RIO DE JANEIRO, COM INOCENTES RECEBENDO BALAS DE FUZIL DISPARADAS PELA PRÓPRIA POLÍCIA ? QUANTOS MORRERÃO ATÉ AS OLIMPÍADAS DE 2016 EM NOME DE UMA FALSA SEGURANÇA? E O QUE ESTÁ
    OCORRENDO NAS PENITENCIÁRIAS DO ESPÍRITO SANTO COM MORTES NOS MESMOS MOLDES DA DITADURA, COM ESQUARTEJAMENTOS DE PRESOS ? SÃO BANDIDOS, ASSASSINOS, ESTUPRADORES, ETC.. MAS O ESTADO NÃO PODE SE NIVELAR POR BAIXO.
    “SE AGES CONTRA A JUSTIÇA E EU TE DEIXO AGIR, ENTÃO A INJUSTIÇA É MINHA” ( MAHATMA GANDHI )

    • Leo
      Publicado 7 de dezembro de 2009 em 9:08 | Permalink | Editar

      Joaquim, a situação não é pior do que no tempo da ditadura pois, graças à democracia, temos condições hoje de denunciar e reagir a esses abusos.

  3. Fernando Pinheiro
    Publicado 12 de maio de 2010 em 18:30 | Permalink | Editar

    A tortura e assassinato por motivos políticos/ideológicos não são comparáveis aos assassinatos cometidos desde sempre nas cadeias do Brasil, pelo fato de que havia um aparato específico só para punir/matar um determinado tipo de pessoas que, na realidade, não cometiam crime algum, exceto o de não se conformar com o regime vigente. Isso não justifica ou ameniza o fato de que se cometem atrocidades contra pessoas à margem da sociedade, mas nos próprios meios da marginalidade a tortura e assassinato recíprocos são coisas corriqueiras – coisa que não ocorria no seio da militância política dos anos de chumbo.


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