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Psiquiatras defendem maior prevenção do uso abusivo do álcool
Da Agência Câmara
Em seminário na Câmara, nesta terça-feira, a psiquiatra Camila Magalhães Silveira defendeu uma maior atenção do Poder Público para a prevenção do consumo de álcool. “Não se deve apenas tratar os dependentes, mas dificultar o uso de álcool no País, que em média se inicia aos 16 anos de idade”, disse a médica, durante seminário sobre dependência química promovido pela Comissão de Seguridade Social e Família.
Ela ressaltou que o brasileiro bebe de modo prejudicial e mostrou-se preocupada, principalmente, com os jovens, que bebem nas festas universitárias e entre os amigos dentro de um padrão chamado “beber pesado episódico”. Significa dizer que em uma festa, por exemplo, um rapaz bebe pelo menos cinco doses de bebida alcoólica e uma garota, pelo menos quatro, colocando em risco a própria qualidade de vida.
“O beber pesado episódico é o padrão de consumo de pelo menos um em quatro jovens brasileiros. Esse padrão está relacionado a brigas, sexo desprotegido, acidentes. Quanto mais cedo se inicia o consumo de álcool, mais cedo o indivíduo terá problemas”, acrescentou Camila Silveira, que integra o Núcleo de Epidemiologia da Universidade de São Paulo (USP).
Lesões cerebrais
O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), João Alberto Carvalho, lembrou que o uso de drogas na adolescência danifica áreas e funções cerebrais que ainda estão em fase de maturação. Além disso, o uso dessas substâncias pode agravar transtornos psiquiátricos ou precipitar o surgimento deles.
Carvalho defendeu investimentos na escola, como rede de proteção, e na cultura e no lazer voltados para os jovens. Já Camila Silveira sugeriu que o País adote medidas para dificultar o acesso ao álcool, como a proibição de festas com bebidas liberadas e da venda de álcool em universidades.
“Nos Estados Unidos, o modelo de combate ao problema é bastante funcional em relação ao beber pesado. Lá se evita vender bebida para quem já está alcoolizado, por exemplo”, comparou.
Medidas
As deputadas Rita Camata (PSDB-ES) e Elcione Barbalho (PMDB-PA), que sugeriram o seminário, reconheceram as dificuldades para prevenir o problema no País. Elas ressaltaram, no entanto, medidas aprovadas recentemente de combate ao abuso de bebidas alcoólicas.
“É grande a responsabilidade que temos. Até agora há muita incompetência, porque só atuamos na repressão. Mas começamos a enxergar que se trata de um problema de saúde pública também. Por outro lado, temos a Lei Seca, temos um aumento no preço das bebidas e o projeto que proíbe a publicidade desses produtos, que teve grande rejeição, mas pode ser retomado”, disse Camata.
O Projeto de Lei 2733/08, do Poder Executivo, em análise na Câmara, proíbe rádios e TVs de veicularem, das 6 às 21 horas, propaganda de bebidas com teor alcoólico superior a meio grau Gay Lussac (GL). Se o texto for aprovado, cervejas, champanhe e vinho, por exemplo, passarão a ter as mesmas restrições de propaganda hoje impostas às bebidas mais fortes, como vodca, cachaça e uísque, que têm teor alcoólico superior a 13 graus GL.
Elcione Barbalho anunciou durante o seminário que vai propor a retomada do debate sobre a proposta. “As propagandas invadem todos os dias a sua casa, são muito bem elaboradas, muito bem feitas, incentivam uma sociedade consumista, é comer com os olhos”, disse a deputada. Ela defendeu ainda a elaboração de políticas que garantam a escola em período integral e oportunidades de trabalho para os jovens de maneira a não ferir as proibições da legislação brasileira.
O psiquiatra João Alberto Carvalho lembrou que um documento prévio da Organização Mundial da Saúde (OMS) já defende a proibição de propaganda, além do regulamento do preço das bebidas e da dificuldade do acesso ao álcool. “O Brasil não pode se ausentar das políticas do mundo”, disse o médico.