Por Paulo Teixeira

“As pessoas não morrem. Ficam encantadas. A gente morre é pra provar que viveu.” 

Guimarães Rosa

Já tínhamos saído do ano de 2020, todos ainda muito machucados com as feridas provocadas pelo duríssimo ano que passamos. Perda de amigos, parentes próximos, distanciamento social, privações, enfim, muita dor.

Mas sentíamos um certo alívio, parecia que todos os males teriam ido embora com o terrível ano de 2020, quando, no primeiro dia do “ano novo”, veio a notícia: morreu o Padre Ticão! A primeira reação foi a de não acreditar. Seria “fakenews” e logo alguém desmentiria, então, não passaria apenas de um frio na barriga. Mas não, não veio o desmentido, pelo contrário, veio a confirmação.

Aí vem um segundo sentimento: e agora? O que faremos sem o Padre Ticão?
Para alguns um sentimento de orfandade. Para outros, um vazio. A pergunta volta: o que faremos sem o Padre Ticão? Difícil de responder.

Nesses 43 anos, Padre Ticão ocupou um lugar gigantesco na Zona Leste da cidade de São Paulo, estando presente em todas as lutas importantes do povo da região. Ele era uma espécie de Mandela, Gandhi, Martin Luther King da Zona Leste.

Padre Ticão acreditava que a diminuição das desigualdades sociais se davam pela conquista de políticas públicas. Assim, lutava pela conquista de creche à universidade, de saúde preventiva a hospitais, das casas à praça de esportes, de ônibus à estações de metrô. Ele animava o povo a lutar.

Participou das lutas Contra a Carestia e pela Anistia, na década de 70, pelas “Diretas Já”, na década de 80, e por mais direitos, nos anos 90 que continuaram avançando nos primeiros 15 anos do novo século.

Como padre, ele materializava os propósitos das Campanhas da Fraternidade em conquistas de equipamentos voltados para os temas dos portadores de necessidades especiais – Acedem, do meio ambiente -, o Parque Dom Paulo Evaristo Arns e o tema dos idosos como o Núcleo de Convivência do Idoso Tereza Bugolin.

Manteve cursos sobre a Bíblia baseados na Teologia da Libertação, que ajudavam o povo a entender a Bíblia e a fazerem do livro sagrado uma ferramenta de construção da própria cidadania. Criou as chamadas Escolas de Cidadania, que hoje, já somam vinte no estado de São Paulo, visando a formação e a conquista da cidadania.

Convidado pelo pároco, Paulo Teixeira sobiu ao altar para falar sobre a Cannabis medicinal, durante a missa especial com doentes que se tratam com o óleo da planta.
(Foto: arquivo pessoal/Paulo Teixeira)

Nesses últimos anos, ele demonstrava enorme entusiasmo e admiração com as posições assumidas pelo Papa Francisco e pelo seu modo de fazer o papel da igreja no mundo. Padre Ticão entendia que no estágio atual da Medicina e da Farmacologia, havia um domínio da indústria farmacêutica que anulava o conhecimento popular sobre saúde. Por isso, abriu espaços para os interessados em fitoterapia e naturopatia, valorizando os saberes tradicionais do povo sobre plantas com que nossas avós curavam nossas enfermidades, voltando a ser cultivadas nos quintais das casas da Zona Leste. E elas, as avós, tiveram seus diplomas da vida valorizados.

Ele era um homem à frente de nosso tempo. O padre também conheceu o cientista e professor Elizaldo Carlini, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que lhe apresentou o valor terapêutico da Cannabis sativa. O que o levou  a organizar cursos, que reuniram até 5 mil pessoas pela internet, administrados por professores e cientistas que discutiam o uso medicinal da planta.

Durante a missa, no último dia 6 de dezembro, ele abriu espaço para depoimentos de pacientes e familiares que testemunharam sobre a cura e melhoras na saúde de portadores de epilepsias, dores crônicas, esclerose múltipla, autismo e outras infinidades de doenças– que também mostraram melhoras com o tratamento. Pela primeira vez se viu dentro de uma missa, na Igreja Católica, depoimentos sobre o uso medicinal da Cannabis, planta até então demonizada.

Voltemos para pergunta do início deste texto, o que vamos fazer com a partida do Padre Ticão?
Arrisco uma resposta: aprendamos com ele a enfrentar a vida com magnitude, façamos como ele, caminhando com o povo para a conquista de seus direitos e continuemos, com coragem, as suas lutas!

*Paulo Teixeira é advogado e deputado federal (PT-SP). Era amigo de Padre Ticão.

Texto originalmente postado por Valéria França, em sua coluna “Cannabis Inc.” na Folha de S. Paulo. Link para acesso em: https://cannabisinc.blogfolha.uol.com.br/2021/01/04/o-que-faremos-sem-o-lider-comunitario-padre-ticao/